31/07/2009

Caminho Inca



(O texto abaixo foi escrito em circunstâncias bem particulares. Na ocasião, eu seguia em viagem para Machu Picchu. Foi no segundo dia de caminha pelas trilhas incas. 49 Km de caminhada. Escrevi na segunda noite, a pior, em uma barraca após um tímido prato de sopa - que nem quis saber do que era pra não dar trela às frescuras culturais). Estava relendo este texto hoje, relembrando a intensidade do momento de sua criação. Compartilho com os amigos leitores. Espero que gostem e sintam um poco do indescritível que é tudo aquilo)



Montanhas, muitas montanhas.


O aventureiro, ao início da viagem, não faz a mais remota idéia do que o espera.

As trilhas Incas, forjadas em pedras de forma a criar infinita escadaria irregular, circundando toda a grande montanha... O vento, o frio e a chuva açoitam o peregrino que se atreve a desafiar a montanha. Pedras escorregadias, inclinadas, pontiagudas, curvas ou achatadas torturam os pés.


De longe pode-se ver o infinito do caminho, sempre acima. E que não se engane o viajante, após cada curva uma nova montanha se apresenta imponente, com caminhos a serpentear rumo às nuvens.


As dificuldades são imensas. Os pés doem, as costas se inclinam sob o peso da mochila. O suor escorre por baixo de grossos agasalhos.

A capa de chuva já não retém a água. O suor se combina e mistura com gotas gélidas que vêm de toda parte.
Nas mãos, grossas luvas e um cajado. Todo o corpo quer descanso.

Por todos os lados selva e abismos deslumbrantes. Riachos furiosos, escondidos na selva, completam a sinfonia Inca... Uma espécie de canto andino regido pelo vento...



São 4 dias, 49 km de caminhada... Subidas intermináveis, descidas lentas e igualmente dolorosas... escorregadias...


A montanha bafeja seu hálito frio e úmido sobre tudo e todos, se mostrando viva, pulsante... Observando nossos passos.

Eis o caminho Inca!



VALE A PENA???

Esta pergunta não pode ser respondida a não ser por cada um, individualmente, e tão somente, apenas, após ter vencido o caminho através das montanhas.


Pela tradição, os Incas (os líderes) se acreditavam Deuses. Sim, isso explica tudo. Todo esse caminho!

Os Deuses habitam o mais alto, o mais inacessível culme das montanhas. Por isso os Incas viviam lá, por isso erguiam seus templos e santuários em alturas tão extremas. Não era apenas para se sentirem próximos aos seus Deuses, eles próprios se sabiam Deuses.

Os mortais vivem nos vales, o Olimpo é para os Deuses!

Vencida a montanha, alcançado o cume, a paisagem torna-se indescritível, inenarrável à linguagem humana. Agora, também somos Deuses! Olhamos a montanha do alto de seus 4.300 metros, vencidos!, passo a passo.

Não somos mais mortais. Atingimos o ponto de onde não se pode mais voltar ao vale.

Sentimos e vemos como os velhos Incas, Deuses como nós, conquistadores da montanha e de si mesmos.

Do alto é possível ver parte do que passou.

Sim, agora somos Deuses! Caminhamos na "Cidade das nuvens". Exploramos cada canto. Respiramos seu ar. Deixamos nosso sangue, suor e pensamentos...


Alguém pergunta pela descida?

Nao há descida!

Uma vez atingido o Olímpio não se pode mais voltar. Esta é a lei dos imortais! Agora somos Deuses como todos os outros.

Os milhares de problemas da vida perecível se curvam tímidos, sem força para olhar-nos.

Rompemos a montanha. Que venham outras! Serão apenas outras, nada mais!

(E me perguntam, vale a pena?)


Os Incas foram grandes porque se acreditavam Deuses. Assim também foi com os Egípcios e tantos outros povos...

Eis o segredo!

Para um Deus, não há o impossível.

("Só o impossível acontece! O possível só se repete")

Foto alguma descreverá o que só os olhos dos que aqui estiveram puderam e podem ver... sentir... imaginar...








Um comentário:

Mélker Rúbio disse...

tenho muita vontade de conhecer as ruinas incas, um dia irei lah...

mas seu texto me fez imaginar como se eu estivesse lah escalando contigo.

muito bom...

so aumenta a vontade de ir...

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