03/08/2009

Cortina de vidro



















A cidade situava-se no antigo território indígena “vale da brisa”, nome que acabou por originar a atual designação do lugar: Brisal.

Brisal, ou vale da brisa, no princípio, era uma região extremamente pacata e quente, habitada apenas por índios e uns raros aventureiros que se decidiam por arriscar a sorte ali. Um dia, porém, tudo começou a mudar. Um daqueles pioneiros, quase ao acaso, descobriu ouro por aquelas bandas, iniciando verdadeira debanda de gente por lá. A cidade das brisas começava a sentir o cheiro forte de seu primeiro ventoral. E ele vinha com força, derrubando e queimando árvores, matando gente, tingindo rios de vermelho, loteando terras e construindo casas.

Algum tempo depois e a cidade já se achava irreconhecível, tamanha a mudança falseada. Fábricas, casas, prédios, condomínios, bancos, praças, pessoas; igrejas, favelas, padarias, mercados, Bancos, financeiras, empreiteiras, loteria, botecos, cinema, teatro, bares, lojas de roupas, roupas de lã, esqui, pessoas; ponto de ônibus, rodoviária, ônibus, carros, charretes, cavalos, pessoas, prefeitura, escolas, creches, farmácias e tudo mais que se possa imaginar... A cidade se agitava e se contorcia no olho do furacão.

O antigo lugarejo pacato agora já dava seus primeiros pitacos na economia mundial. A voz rouca de seus diplomatas, gagos e fanhos, era ouvida e respeitada por todos...

O mundo, nessa época, já não guerreava tanto. Ricocheteava, apenas, nas mãos de uma só nação. Tudo gravitava em torno dela. “O mundo” achava que sem sua influência o caos voltaria a reinar. Mãos verdes com caras de presidentes empunhavam o binóculo e acompanhavam com seus olhos esbugalhados, teleguiados, o tributar do planeta. O César da nova era se impunha com mãos atômicas.

O mundo seguia girando capenga, de bengala velha na mão, caindo de banda, tentando a custo se equilibrar no fio fino que atravessa o abismo do capital.

Mais um dia amanhece sobre a nobre capital. Sim, Brisal agora é capital.

Mas o que é isso? Algo acontece! As pessoas correm em desatino, trombam, tropeçam, caem ao chão. Carros batem, dão freadas bruscas. A mulher reclama, o filho chora, a beata reza, o político se esconde, o policial atira, o bandido se arrepende... O que está acontecendo afinal? Estará instalado o caos, o juízo final? O que é? Diga logo, não faça suspense!

– De onde veio isso ?

– Só pode ter vindo do espaço. Coisa de ET!

– É um sonho? Estou sonhando, mamãe?

– Tenho que me esconder.

– Quero ver eles me pegarem agora.

– Meu deus, vou me atrasar para a entrevista.

– Deve haver um buraco.

– É, o melhor é sentar e ver o que acontece...

Os comentários eram variados, uns se mantinham calmos, outros assustados, outros curiosos e indagadores, mas apesar de tudo o medo trazia a todos uma certeza sobre tudo: Alguma coisa havia mudado.

No centro da cidade, dividindo a rua principal, cortando prédios, praças, carros e bancas de jornal, uma imensa cortina de vidro transparente, impenetrável, se estende em todas as direções rumo ao infinito. O pânico é total. Pessoas correm, trombam umas com as outras, chocam-se com o vidro tentando atravessá-lo. Helicópteros das forças armadas tentam a todo custo vencer o inesperado obstáculo. Inútil! O vidro se entende até o céu, e parece ir além, pois nem os satélites conseguem passar.

Na TV o noticiário informa em plantão especial o incomum episódio que se repetia por todo o mundo.

Mas esperem, ainda não acabou! O pior está por vir! Sabe aquele país que se outorgava o monopólio do mundo? Aquele que roubara de Adão o testamento do paraíso! Pois bem, desapareceu! Isso mesmo, sumiu sem deixar vestígios. O mundo acordou de pernas pro ar. Tudo é uma confusão que só vendo.

O Turco da padaria reclama que não pode cobrar a dívida do João do açougue. A secretária protesta por ter perdido o emprego no escritório que fica do outro lado; o advogado ameaça processar o dono do vidro, pois partiu seu escritório ao meio. Tudo é caos, enfim.

O mercado de ações acha-se perdido, dividido. O que fazer agora que o dono do mundo sumiu? Uns dizem que é um truque para testar a fidelidade dos aliados, outros afirmam ser o teste de uma nova arma de guerra. E os fanáticos, é claro, juram ser o fim do mundo chegando. Cansados de tanto esperar esse fim do mundo que parece estar vindo montado no lombo de um jumento, tamanha a demora, os homens da bolsa resolveram lotear o paraíso, e o inferno também, para quem interessasse. Assim, se a crise não passasse, ao menos os negócios estariam salvos, mesmo que a alma perdida.

E seguiram-se longos meses assim...

Nos primeiros dias após a imensa surpresa, o único som que se ouvia era de sirenes esparsas que percorriam sozinhas as ruas desertas. Na televisão, reprises de novelas e desenhos animados eram mesclados com plantões repentinos, que mais repetiam que informavam. Alguns canais exibiam filmes bíblicos proféticos ou de guerras interplanetárias, julgando o tema mais adequado à ocasião. As pessoas se olhavam desconfiadas. Mercados, padarias, açougues, farmácias, lavanderias e sorveterias mantinham suas portas fechadas. Ninguém saiu de casa por um longo tempo.

Até que, um dia, alguém resolveu esticar o pescoço e ver o que havia lá fora. Um outro alguém, ouvindo o barulho da porta se abrir, resolveu dar uma olhadinha no que aprontava o vizinho. O outro, que não é bobo de ficar para traz, foi ver também. Assim, em pouco tempo centenas de pessoas já estavam de novo a caminhar pela rua. Surpresas sim, pois que tudo era novidade. Mas, como acontece com tudo quanto é novidade, a surpresa passou logo.

Algum tempo depois a vida começava a voltar ao normal. A cidade, agora dividida, nunca esteve tão unida. Todos os dias parentes e amigos se encontravam em frente a grande cortina de vidro para se verem. Mas, apenas se verem, já que a cortina era espessa e não passava som algum.

Passado o susto inicial, logo a economia se acertou. As editoras se apressaram em apagar dos livros de história o nome daquela nação que já não existia mais. Qual é mesmo o nome dela? Ah!... Quem se importa? Já não existe mesmo. Erga-se um memorial, já pichado, homenageando-a e pronto, está resolvido.

E por falar em pichação, não demorou nada, é claro, e a cortina começou a ser pichada. Isso no subúrbio, porque no centro o prefeito contratou artistas consagrados para produzirem grandes obras de arte. Foi destinada também uma pequena parte da cidade, chamada de parque da saudade, para os encontros com os parentes que ficaram para o outro lado. E a vida continua, tem que continuar!

Do outro lado do vidro, uma pequena movimentação começava a tomar corpo. Com o vidro dividindo a cidade, as partes teriam que se tornar autônomas. Afinal, a prefeitura com toda a câmara de vereadores ficara do outro lado. Logo políticos oportunistas de oposição proclamavam em praça pública, na praça dividida, a necessidade de se instaurar um novo governo. E vamos às urnas, queimá-las!

Embora os esforços acrobáticos do governo em conter as centenas de seitas proféticas, apocalípticas e fanáticas que se proliferavam feito pulgas por toda meia cidade, nada parecia adiantar. O fenômeno, de caráter surreal, havia mexido com a cabeça das pessoas.

Em uma das ruas, agora transformada em beco, crianças jogam bola. A mãe observa despreocupada o grande paredão branco que se estende diante de sua janela. Um homem cultiva o quintal, dá algumas picaretadas no vidro tentando apanhar as rosas que ficaram do outro lado. Logo desiste. Crianças desenham. Barracos se escoram à nova parede. Tudo parece indicar que a vida começava a se ajeitar.

Passados meses, o vidro já não era tão claro. Já não se via o outro lado nem nas áreas sem pichação. Estava embaçado, opaco. Quase uma parede branca a se estender ao infinito.

Sem forma de comunicação, aos poucos, parentes e amigos deixados do outro lado foram esquecendo-se. Era como se o muro sempre estivesse ali, sepultando o passado. Vida que segue!

A bolsa recuperou-se da queda. Como o fim do mundo não veio, quem comprou ações do céu acabou falindo.

Um dia, quando tudo voltara ao normal e parecia não haver mais novidades, a cidade acordou com um novo susto. O muro havia desaparecido. Dessa vez as pessoas não se esconderam. Foram para a rua e pararam estupefatas frente ao que havia sido vidro. Olhavam o outro lado. Eram os olhos da multidão sem visão que formavam o muro agora. Um muro de olhos a mirar, procurando algo que não estava mais ali. A multidão se alinhava em sua busca silenciosa. Os olhares se mantinham calados. O que se via? Ninguém sabe.

Naquele dia as pessoas ficaram até tarde. Não atravessaram o limite que imaginaram. À luz de fogueiras ou de estrelas, observaram o outro lado. Olhos baços. O vidro já não estava no espaço. Estava em todos ali. Cacos nos olhos. O que se via? Muros. Cada um o seu.

Do outro lado não havia ninguém. A cidade estava deserta. Prédios devastados indicavam uma guerra. Nuvens escuras, sujas, pesadas, faziam o tempo parar, se arrastar para romper a atmosfera densa dos pensamentos torturados.

A terra da brisa jamais seria a mesma. O mundo nunca mais giraria como tal. Para fronteiras físicas não há mais sentido. Tudo está nos olhos de quem vê. Para alguns o muro ainda está lá. Impenetrável. Perene. Para outros, nunca existiu.

Brisal despertava do sono com portas, janelas e grades nos olhos de seus habitantes. Dizer-se cego é fantasia numa terra onde ninguém mais sabe o que é ver.

Alguns rompem o casulo, atravessam a casca, fronteira consciente da inconsciência. Do outro lado, na terra devastada, afundam os pés descalços. Medos fossilizados, pesadelo dicotômico tomando forma. Inconsistente sombra tangível do inconsciente. Tão real como a sensação de um sonho ruim ao acordar.

Fanáticos já não mais há. A realidade os dizimara. Sob os escombros da memória próteses de pernas sem dono figuram a inércia.

Todos caminham, juntos, sempre sozinhos, pelos escombros. O tudo e o nada se tornam um, partes de um todo que é completo em cada uma de suas partes.

Políticos noctívagos preparam-se para retomar o poder. São cobras que se alimentam de peçonha.

Cada elemento social preserva a síntese de sua sociedade, DNA viral multiplicando-se em organismo alheio. Caminhar por ali era excursionar pelo pior de si. E todos nós também estamos lá, em nós. Realidade física ou mental? Difícil responder, tamanha a realidade irreal.

Mais um dia. Ao acordar, Brisal segue pacata. Indígenas preparam cerimônia ao Deus Sol. Tudo segue tranqüilo. A sensação é que sempre permanecerá assim. O tempo ainda não havia passado. O paraíso original não fora manchado. O tempo permanece pequeno, criança a dormir em nossas mãos. Enfadonho, golfando sonhos. Medindo o comprimento das ameaças. Fortalecendo braços, pés, mãos e pernas. Tudo é pequeno. Ainda é tempo... Ainda há tempo...

Sávio Damato

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